quinta-feira, 6 de setembro de 2007

A ética, o trabalho e as pessoas...

Estava pensando sobre as relações no trabalho.

Tenho ouvido muito e eu mesma já vivenciei situações onde amigos de longa data, profissionais respeitados e tal, de uma hora para a outra se dizem traídos, passados para trás em seu ambiente de trabalho e fiquei pensando em como são frágeis essas relações.

Pessoas que convivem diariamente e fazem parte de uma mesma empresa, deveriam além de um salário no final do mes, ter outras coisas em comum, como objetivos e metas visando a empresa como um todo, assim como terem entre si afinidades não só de quereres, como também de valores.

Começo pensando sobre a ética e o que ela representa nesse mundo profissional.

A ética seria a maneira como um indivíduo percebe, julga, discerne e age em suas relações com o mundo, com as coisas e com as outras pessoas.

Baseado nesses valores éticos nos colocamos em constante questionamento sobre nosso dia a dia.

Em relação ao trabalho esses valores são colocados a prova em nossas escolhas de forma bem ampla, ao optarmos sobre que técnica usar, qual metodologia, quais ferramentas, que ações e também sobre as consequências que qualquer ato venha a causar, na obtenção do resultado final.

Na verdade não existe uma "ética do trabalho" que possamos ter como modelo. O que existem são diversos modelos de pessoas éticas ou não trabalhando num mesmo espaço.

Vivemos numa sociedade onde o consumismo, o poder, a eficiência, a produção, o lucro, o sucesso e a fama são altamente valorizados e dentro desses parâmetros vemos a ambição como um traço de personalidade mt almejado pelos donos de empresas em seus funcionários.
Pessoas ambiciosas são auto-motivadas para o sucesso e deveriam ser em tese, ótimos administradores, pois teriam como meta pessoal a eficiência.

Bom...
É nessa busca pelo sucesso profissional que deveríamos parar e nos questionarmos.

Primeiro sobre o papel do trabalho na vida de cada um.

Na verdade o trabalho seria apenas uma das partes de nossas vidas, onde à ele caberiam a nossa subsistência e realização enquanto profissonal.

O que vemos nas sociedades capitalistas é o trabalho sendo uma referência absoluta para todas as outras atividades de nossas vidas.

Montamos nossas vidas em função do trabalho, mas o pior é ter nessa realidade um paradóxo nem sempre visível a todos.

Ao mesmo tempo que o trabalho nos enche de benesses em prol de uma melhor "qualidade de vida", nos tira a verdadeira qualidade de vida que seria a valorização do SER.

O paradigma construído em prol do sucesso sempre, sem limites, nos tem levado a problemas como o aquecimento global, às traições no ambiente profissional e a sensível piora de nossa qualidade de vida.

Hoje, mais do que nunca é necessário que paremos e façamos um exame de consciência ou nos perdemos em situações sem nenhum respaldo lógico.

O trabalho cria a artificialidade na nossa vida. Quando trabalhamos buscamos em primeira instância satisfazer desejos artificiais, criados sobre bases nada sólidas, ou seja, sem uma conotação social embutida de valores, crenças, sentimentos, emoções, relações com o outro e com o resto, tudo perde o sentido.

Vivemos uma crise, no sentido de termos perdido a nossa identificação com o trabalho.

O trabalho passa a ser um determinante da pessoa e não o contrário.

Perdemos nossa identidade como indivíduos, já que somos guiados pela vida e aprisionados numa subjetividade social, que não encontra nenhuma relação com a cultura e com as relações sociais.

Ao invés de construirmos um projeto de vida, vivemos para consumir, na ânsia de se buscar "segurança e conforto", uma objetividade fútil que nos promete livrar das dores e frustações de uma vida de verdade.

As pessoas estão vazias e se dizem felizes e plenas, por terem "sucesso" no trabalho.

Não é dessa lógica artificial do trabalho que construíremos valores que darão sentido à nossa existência.

Então...perdemos os antigos valores e não construímos novos, vivemos uma mentira onde a sociedade e os indivíduos por ela socializados estão cada vez mais fadados a uma existência esvaziada e empobrecida.

O que suporta as sociedades hoje, senão a manutenção de valores que teem suas explicações no passado, baseados em modelos ultrapassados ??!!

Vejo hoje as pessoas tendo que se amparar nos restos daquilo que nós próprios ajudamos a destruir e que por isso mesmo já não nos servem como justificativas e então perdem o sentido, ou tentando explicar suas escolhas baseadas em valores falsos e construídos sob a percepção consumista e imediatista que se apresenta de forma frágil e inconstante, nos levando a um invariável sentimento de frustação.

O que nos dá sentido à vida então ??!!

A valorização às relações humanas, o cuidado com o outro, no trabalho e/ou fora dele, talvez não nos leve ao "sucesso imediato", ao maior lucro, ou ao imediatismo das realizações materiais, mas seriam o primeiro passo na reconstrução de valores mais duráveis, sólidos e também menos agressivos e conflitantes nessa nossa interação com o outro e com o meio em que vivemos.

A lógica do trabalho atual nos afasta, nos diminui como seres humanos, nos agride, nos transforma em meros instrumentos manipulados de uma engrenagem paradoxal, que reduz tudo e todos a serem avaliados por critérios de produtividade e lucro.

Não nos preocupamos no ambiente de trabalho com a felicidade do outro, não criamos laços de amizade, não nos importamos com o crescimento humano, como se isso fosse um impecilho à produtividade, ao lucro e à boa administração, como se para obtermos o sucesso devessemos ser apenas eficazes e racionais nas escolhas em detrimento ao relacionamento humano.

Está tudo errado.

Investir na construção humana, não porque daí virão ganhos materiais, mas porque acreditamos que todo o resultado de nosso trabalho, seja o desenvolvimento técnico e científico, assim como os ganhos materiais, não teem sentido em si, mas que só valem a pena se contribuírem para a melhoria da condição humana de forma igualitária por toda a sociedade.

Portanto, onde quero chegar é que a ética não depende do trabalho e/ou de seus resultados, mas depende apenas da decisão tomada por cada um de nós como indivíduo, algumas vezes insuportável e difícil, mas que se tivermos todos a consciencia de que a existencia individual se suporta nos sentidos coletivamente construídos e que essa construção depende do tipo de relações criadas no ambiente de trabalho, tudo passa a ter sentido novamente.

A razão de nossa existência transcende à produção de bens, é antes de mais nada a auto-criação de cada ser humano, onde a meta é a construção de sentidos mais generosos para a sua própria existência individual e tb a coletiva.

Assim, como vivemos em sociedade, a nossa melhoria como seres humanos está necessariamente ligada ao outro, ou seja, o meu êxito enquanto ser humano precisa da participação do outro e vice e versa.

Abandonar os objetivos individuais, as ambições pessoais em prol de objetivos maiores, de construção comum, só nos fará bem e nos dará a possibilidade de crescimento pessoal e de nossa sociedade como um todo.

Mônica Rubini